sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Brasil precisa de mais engenheiros (IPEA)


Brasil precisa de mais engenheiros
26/03/2010
Meta demanda que o País dobre o número de formados na área

Para 2014, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) definiu como meta formar 100 mil engenheiros, o que significa mais do que dobrar o número de formandos de 2008. Afinal, técnicos ou tecnólogos não entram nessa conta e o Censo da Educação Superior do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) indica que, no ano de referência, formaram-se nas diversas especialidades da engenharia 47.098 profissionais. 

Parte da responsabilidade pela meta está nas mãos da comissão formada pela Capes com o objetivo de propor ações indutoras e estimular o desenvolvimento da pesquisa, da pós-graduação, da produção científica e da inovação tecnológica nesta área do conhecimento. Para Sandoval Carneiro Júnior, presidente da comissão e diretor de relações internacionais da Capes, a taxa de formação de engenheiros no Brasil é inferior à de outras nações. "Dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil é o que menos forma engenheiros. A Rússia forma 190 mil por ano, a Índia 220 mil e a China 650 mil", diz ele com base em dados de documento elaborado pela comissão e entregue ao ministro da Educação, Fernando Haddad.
Para a indústria, a escassez de engenheiros é um fato preocupante desde 2008. "Mesmo com a recessão em 2009, setores como a construção tiveram demanda além do esperado. Não só não houve desemprego de engenheiros como os salários, em média, aumentaram 20%", afirma Marcos Maciel Formiga, representante da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e membro da comissão da Capes. Para ele, se a taxa de crescimento econômico continuar acima de 5%, haverá necessidade de duplicar o número de engenheiros formados anualmente. 

Segundo Carneiro Júnior, um dos riscos imediatos da falta de mão de obra qualificada é o de encarecimento do setor produtivo. Ele acredita que as empresas passarão a buscar profissionais estrangeiros, a custos elevados e com a exigência de adaptação do conhecimento técnico à realidade local. Além disso, intensifica-se a dependência brasileira de inovação tecnológica. "O Brasil entra numa fase de crescimento e precisamos sair do modelo econômico baseado na exportação de materiais primários e commodities, cujo valor agregado é pequeno", alerta Carneiro Júnior. De acordo com ele, para mudar esse quadro, é necessário contar com profissionais capazes de desenvolver inovação tecnológica. 

Combate à evasão
 
Carneiro Júnior é contundente ao afirmar que o principal desvio é a evasão universitária, tendo sido o que motivou a Capes a criar a comissão. Segundo dados por ele apresentados, a evasão, mesmo em IES (instituições de Ensino Superior) públicas chega a 60% e atinge 75% em entidades particulares. "Vagas temos de sobra. Em 2007, 450 mil alunos se inscreveram para 198 mil vagas de engenharia, mas dessas, apenas 115 mil foram preenchidas. Sobraram 80 mil ociosas", diz. 

A mesma opinião tem o professor Alexandre Pacheco, coordenador da comissão de graduação da escola de engenharia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) onde, afirma, apenas no curso de Engenharia Civil, todos os anos são oferecidas 175 vagas, com ingresso de cerca de 150 alunos. Segundo ele, apenas em torno de 80 chegam a se formar. "O pessoal tem muita dificuldade nos primeiros dois anos, quando a evasão é pronunciada", declara Pacheco. Um dos motivos para a evasão seria o perfil estritamente acadêmico do ciclo básico a maior responsabilidade. "Depois que entra na parte profissionalizante, o pessoal costuma engrenar, faz estágios e iniciação científica", acrescenta ele.
Vestibular

Vagas Oferecidas
Ingressos
Concluintes
2005
148.080
89.030
36.918
2008
239.134
140.878
47.098
Fonte: Censo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira)

A suposta responsabilidade pelas falhas que levam à evasão divide-se entre o Ensino Médio e as faculdades. O primeiro respondia pelas deficiências na área de exatas. Tanto que na UFRGS foi criado um programa para detectar alunos com dificuldades nas áreas de física e matemática. Eles são encaminhados para curso preparatório de recuperação. "Modificamos os critérios de recusa de matrícula devido à má performance, o que culminava com a saída do aluno do curso", revela o coordenador.
A própria CNI, por meio do programa Inova Engenharia, atua no Ensino Médio para estimular estudantes a optarem pela engenharia. "Apenas um aluno dentre 700 optará pela engenharia. Não temos como conviver com essa realidade. Então essa mobilização vai tentar sensibilizar a sociedade para a importância desse profissional", conta Formiga, superintendente da CNI. 

Já às universidades caberia a responsabilidade por modernizar currículos e torná-los mais atraentes aos alunos a partir do estímulo à aplicação prática dos conceitos nos primeiros anos sem comprometer a base científica. Essa é a opinião de Carneiro Júnior, para quem a questão é amenizar a aridez da teoria por meio da iniciação cientifica, com engajamento em projetos práticos de laboratório. 

A fim de complementar a estratégia de atração e retenção de alunos nos cursos de engenharia, Formiga acredita ser necessário pensar na questão financeira, tanto com relação às mensalidades quanto sob o aspecto dos salários. "Os cursos são difíceis e as faculdades particulares caras. Os alunos vão para as áreas de humanas e sociais, que também abrem chance de prestar concurso", analisa ele. Um dos caminhos sugeridos por Carneiro Júnior para atenuar o problema seria desenvolver um programa de ajuda de custo, não reembolsável, para IES comunitárias com bom desempenho no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes). "Durante muito tempo, os salários da engenharia foram baixos o que, aliado à necessidade de investir durante cinco anos em muito estudo, afastou os alunos", argumenta o coordenador. 

Omissão tecnológica
 
O viés cientificista da educação no Brasil é apontado por Formiga como um dos fatores responsáveis pelo achatamento dos salários de engenheiros. Isso porque os investimentos por parte da indústria em tecnologia seriam escassos. "Estamos mais preocupados com ciência do que com tecnologia. E engenheiros são mais tecnologistas. No, o registro de patentes chega a 400 ou 500 por ano. No mesmo período de análise, a Coréia registrou dez vezes mais patentes do que nós", compara ele. 

Dados da pesquisa Inova Engenharia 2008
Propostas para a modernização da educação em engenharia no Brasil

Engenheiros contratados por porte (número de funcionários)
Descrição
Até 49
50-249
250-499
500 ou mais
Total
%
Ramos que empregam os primeiros 49,2% do total de engenheiros
21.930
30.267
16.542
60.086
128.825
49,2%
Construção
7.655
6.468
2.291
2.679
19.093
14,8%
Serviços prestados principalmente às empresas
3.909
5.018
2.732
4.929
16.588
12,9%
Administração pública, defesa e seguridade social
176
1.652
1.414
10.365
13.607
10,6%
Eletricidade, gás e água quente
450
1.421
598
5.218
7.687
6,0%
Fabricação e montagem de veículos automotores, reboques e carrocerias
104
685
740
4.880
6.409
5,0%
Total de Engenheiros
34.224
45.511
24.317
88.157
192.209
49,2%

Ramos que empregam os próximos 26,5% do total de engenheiros
Até 49
50-249
250-499
500 ou mais
Total
%
Correio e telecomunicações
470
1.267
734
3.412
5.883
4,6%
Fabricação de máquinas e equipamentos
945
1.596
622
1.810
4.973
3,9%
Captação, tratamento e distribuição de água
211
790
555
2.285
3.841
3,0%
Fabricação de outros equipamentos de transporte
44
140
27
3.394
3.605
2,8%
Fabricação de produtos químicos
360
1.327
953
927
3.567
2,8%
Fabricação de coque, refino de petróleo, elaboração de combustíveis nucleares
22
170
247
2.840
3.279
2,5%
Comércio por atacado e representantes comerciais e agentes do comércio
1.374
1.031
370
451
3.226
2,5%
Metalurgia básica
100
291
301
2.290
2.982
2,3%
Fabricação de máquinas, aparelhos e materiais
321
591
791
1.122
2.825
2,2%
Total de Engenheiros
3.847
7.203
4.600
1.122
34.181
26,5%
Fonte: Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) / IEL (Instituto Euvaldo Lodi)
 
Para essas afirmações, Formiga tomou como base o documento desenvolvido pelo programa Inova Engenharia, que aponta que apenas um terço dos engenheiros permanece no trabalho em sua área de formação. De acordo com o Sumário analítico Mercado de Trabalho para o Engenheiro e Tecnólogo no Brasil, desenvolvido pela CNI, "do total de engenheiros empregados (...) quase metade está concentrada em cinco ramos de atividade, sendo que dois deles estão em áreas não diretamente relacionadas à produção. Um é o ramo de serviços prestados principalmente às empresas (...). O outro é a administração pública, defesa e seguridade social, ou seja, órgãos do governo". 

Dentre os fatores que fazem com que engenheiros migrem para outros setores, Formiga aponta os melhores salários. "Nada melhor que o setor financeiro para engenheiros, onde exercem suas capacidades e recebem melhor", resume. Para ele, embora esse fenômeno mostre o aspecto positivo referente à polivalência desses profissionais, também revela um aspecto preocupante. "Queremos que o setor empregue mais engenheiros em atividades de engenharia. Com competitividade acirrada, não se sobrevive sem inovação e engenharia é fundamental", diz ele. 

O aumento dos salários nas áreas diretamente ligadas à engenharia voltaria a atrair profissionais já formados e alocados em outras áreas e atenuariam o risco de escassez. A possibilidade é apontada no artigo "Escassez de engenheiros: realmente um risco?". "Temos 750 mil engenheiros formados e usamos como engenheiros apenas 211 mil. Se houver demanda efetiva, os salários sobem e o pessoal para de ir para o outro lado", atesta Gusso. 

Assim, a valorização do engenheiro na indústria passa pela mudança de suas funções principais. Para Carneiro Júnior, muitos profissionais utilizam apenas nível técnico de conhecimento, envolvidos com adaptação de projetos às condições locais. "A indústria tem de participar com recursos e definição de prioridades e aumentar a quantidade de estágios de qualidade, que contribuam para a formação", afirma o diretor de relações internacionais da Capes. Condição atestada também pelo Sumário analítico da CNI, que indica que "quando se trata do elemento cada vez mais crítico da inovação, os engenheiros são considerados adequados apenas na adaptação da inovação, ficando um pouco abaixo no conhecimento e na implantação e significativamente abaixo na geração de inovação". 

As possibilidades da indústria para contribuir com a formação profissional envolvem o aproveitamento da polivalência do profissional de engenharia citada por Formiga, o que é explorado com a criação de universidades corporativas. "O profissional bem formado é exigido e, por meio da universidade corporativa, forma-se a especificidade. O profissional, quando bem formado se adapta às novas situações", ressalta o representante da CNI. 

10 comentários:

  1. Essa reportagem “Brasil precisa de mais engenheiros”, aparentemente resultante de uma pesquisa que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) empreendeu, discorre sobre a constatação a que os estudiosos vêm chegando: o nosso país precisa de mais engenheiros por diversos motivos.
    Primeiramente, a reportagem ressalta a meta estabelecida pela CAPES de formar 100mil engenheiros a fim de compor o quadro profissional do país, bem como estimular o desenvolvimento na área de ciência e de tecnologia e, ainda, associando a formação deste profissional ao crescimento e desenvolvimento brasileiros. Descreve, através de índices, que o corpus de engenheiros brasileiros está aquém de países comparáveis com o Brasil, os chamados países emergentes. Isso sugere representar uma dificuldade que tem de ser superada.
    É ressaltado o fato de que os engenheiros que se formam se especificam numa função ou num emprego e não continuam na carreira acadêmica, inibindo o desenvolvimento da pesquisa, da inovação tecnológica e a criação de patentes – que são atividades potenciais ao engenheiro, ao tecnicista.
    Há, porém, outros fatores de cunho governamental e/ou universitário, quais sejam: i. A educação deficiente, sobretudo do ensino médio, que não oferece condições para que os estudantes se sintam encorajados a prestarem vestibular para as carreiras de engenharia; ii. os currículos extremamente tradicionais que mantém disciplinas do “ciclo básico” no começo do curso desanimando ou não incentivando que os estudantes de sintam entusiasmados com aquelas outras de cunho mais prático; iii. As altas mensalidades em cursos particulares de engenharia; etc.
    É notável que a faculdade de o estudante escolher o que quer para a vida influi diretamente na construção do Estado-Nação e é diretamente influenciado por ele próprio. Por isso se pensa em soluções para que possíveis engenheiros possam ser formados, contribuindo para o desenvolvimento do país, para a mobilidade e ascensão sociais, a otimização de cargos públicos e o estabelecimento de autonomia tecnológica brasileira.

    Adenilson Antônio de Paula (jira@bol.com.br), se Deus quiser e eu me dedicar, futuro engenheiro de Minas do nosso país!

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  2. O cargo de engenheiro é de fundamental importância para o desenvolvimento de nosso país, porém como comprovado na pesquisa acima citada, é necessário que haja mais investimento no ensino básico, para que possamos ter um número menor de desistência do curso logo no início onde são abordado matérias de base de um curso de engenharia (matemática, física, química).
    Há também a questão de dedicação por parte do aluno que na maioria das vezes concilia trabalho e os estudos e por mais que seja difícil estes tem que andarem juntos para a formação de um bom profissional.
    Assim temos que o desenvolvimento de um país está ligado inteiramente a quem é desenvolvido nele, e cada dia mais o Brasil se supera em algum tipo de tecnologia que na grande maioria das vezes com a mão de obra nativa.

    Hundecimilo Serpa - Eng. de Minas

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  3. * Onde há "cargos", lê-se "gastos".

    Adenilson A. de Paula, eng. de Minas.

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  4. A pesquisa acima nos mostra o quanto está atrasado na formação de engenheiros seja ele em qualquer área, isso e um fato que nos preocupa muito por que estamos em desenvolvimento e precisamos de mão de obra qualificada.
    Apesar de que faltam investimentos na educação brasileira, pois muitos que iniciam o curso não concluem, seja ele por muita dificuldade de ensio, pois não teve uma base boa, por questões financeiras onde o curso e muito caro ou por parte do aluno que na maioria das vezes concilia o estudo do trabalho. No qual acho que o numero de desistência e muito maior.
    Nos estudantes de engenharia temos que reverter esse quadro pois estamos num pais que esta se desenvolvendo e que precisa de mão de obra qualificada.

    Rodrigo Dutra de Oliveira - Eng. Minas

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  5. De acordo com o texto lido fica claro a grande importância de engressar em um curso de ensino superior na área de engenharia. Observando que essa não é uma decisão fácil pelo contrário exige dedicação e habilidade e é aí que encontramos o grande fio da evasão no nível superior, onde é cobrado nos primeiros anos habilidades desenvolvidas no ensino médio como por exemplo física e matemática e dessa vez ainda mais detalhadas, os currículos deveriam ser modernizados para que essa evasão não seja tão grande nos cursos de engenharia.Outro fator que se inclui para que a evasão aconteça é a valorização profissional, pois a mensalidade é muito cara, a dedicação aos estudos é grande e o mercado de trabalho precisa acompanhar todo esse esforço para que no fim tenhamos um profissional de grande qualidade.A engenharia é um campo de trabalho que vem crescendo rápidamente e requer profissionais aptos para esses novos tempos, profissionais esses que ajudarão na construção de um país ainda mais rico, não dependendo de mão de obra estrangeira.
    O texto nos mostra o quanto é importante a dedicação e o comprometimento com nossos estudos para que tenhamos um futuro brilhante e promissor nessa área que só vem crescendo e se multiplicando nos proporcionando ainda mais oportunidades de trabalho.
    Wilson Marcos Fideles da Costa - Engenharia de Produção

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  6. No Brasil, faculdades não é para todos devido as grandes mensalidades. Os jovens optam pelas áreas de exatas por terem dificuldades com física e química. Hoje o Brasil esta numa fase de crescimento e ha muito poucos engenheiros, e nosso país é o que menos forma profissionais. Sandro Mizael

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  7. Após ler o artigo e acompanhando os noticiários na mídia fica evidente que o Brasil necessita de engenheiros. A questão da grande evasão nos cursos de engenharia deve ser levada a sério e devem ser direcionadas mais opções para que o aluno tenha base para conseguir concluir o curso como por exemplo programas que auxiliem na deficiência da área exata vinda do Ensino Médio e programas de incentivo ao estágio e/ou iniciação científica.
    O Brasil é hoje umas das maiores economias do mundo, pólo de grandes talentos que precisam ser melhor aproveitados, temos condição de inovar, transformar e crescer como futuros engenheiros, já é hora do governo subsidiar e entender que os talentos estão aqui, promovendo políticas para valorização do profissional nativo.
    Renato Silva Oliveira

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  8. To convivendo com essa realidade, estou no primeiro semestre e quase 50% da turma ja desistiu devido a dificuldade nas áreas de exata e devido ao auto custo de mensalidade.
    Vejo amigos engenheiros que formaram a pouco tempo e não estão muito satisfeito com a área devido ao salario não muito compensatorio e estão atuando em areas no qual não é de sua formação.

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  9. To convivendo com essa realidade, estou no primeiro semestre e quase 50% da turma ja desistiu devido a dificuldade nas áreas de exata e devido ao auto custo de mensalidade.
    Vejo amigos engenheiros que formaram a pouco tempo e não estão muito satisfeito com a área devido ao salario não muito compensatorio e estão atuando em areas no qual não é de sua formação.
    Rodrigo Vilela - Eng. Produção

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  10. Caros Adenilson, Hundecimilo, Rodrigo Dutra, Wilson, Sandro, Renato Silva, Rodrigo Vilela;

    Li os comentários postados por vocês.

    Welington recebi seu texto por email.

    Magna Campos

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