A responsabilidade do professor também é ressaltada pela professora de Direito, Andrea Chiesa
Antonio*, professor de um curso superior em Campo Grande, pediu aos seus alunos uma resenha sobre um livro. Quando recebeu os textos, uma surpresa: vários textos iguais, com as mesmas palavras, na mesma seqüência e, apesar do nome no cabeçalho do trabalho, o mesmo autor, um colega de faculdade que havia publicado uma resenha sobre o livro na internet anos atrás.
Essa é só mais uma das histórias de plágio que acontecem em escolas, faculdades, cursos técnicos, entre outros locais de ensino, mas por que o popularmente conhecido “control c control v” está tão presente na educação brasileira?
Márcia Bertola, professora do curso de Pedagogia, acredita que falta incentivo à pesquisa. “É preciso apaixonar-se pela leitura, formar pesquisadores, o que temos são copistas e não é incentivada a pesquisa, é preciso ser um pouco cientista, estimular a ler e se interar sobre o que acontece no mundo”, afirma a professora.
A responsabilidade do professor também é ressaltada pela professora de Direito, Andrea Chiesa. “Às vezes, o que o professor pede é fora da realidade do sujeito ou pede coisas exageradas, o professor não pode ter preguiça, quanto mais maçante, menos plágio ele vai encontrar nos trabalhos, por exemplo, se você pergunta para o aluno o que é tal coisa, ele entra na internet e copia mesmo, mas se você pede a opinião dele ou exemplo dele sobre aquilo, é muito mais difícil encontrar plágio”, acredita a professora.
Mas quando é feito um texto e utiliza-se o textos de outros autores em forma de citação, não há problema. É o que acredita o professor Paulo Godofredo, do Curso de Gestão de Recursos Humanos: “O problema é que, ao invés de produzir, ele se apossa como se fosse dele, é uma apropriação ilegal. Tem que pesquisar, citar e dar o parecer dele, o que ele entendeu do texto”.
Punir e mudar
Para a pedagoga Daniela Gil, coordenadora pedagógica da FCG(Faculdade Campo Grande) e professora há 18 anos, o problema está enraizado no sistema educacional, que deixa de punir atitudes prejudiciais ao ensino. “É a lei de Gérson desde pequeno, querendo tirar vantagem em tudo desde cedo, há uma cultura educacional e familiar que incentiva isso, além de também faltar punição para o plágio. Em vez de punir, faz o ‘dessa vez passa’, e essa cultura não muda”, avalia a coordenadora.
Com mais de 20 anos ensinando, o professor Ricardo Leite atua no ensino superior e faz parte do grupo de trabalho da escola em tempo integral, que começa a funcionar este ano em Campo Grande, com a proposta de tornar o aluno um “autor”. Para ele é preciso mudar profundamente: “Sinto dessa forma, está em todos os níveis. Para mudar isso é preciso mudar o modelo educacional, que é baseado na memorização, é uma mudança de métodos, de cultura”.
Agarre-me se puder
Apesar de facilitar o plágio, a Internet não é vista só como vilã nessa história. Para os professores, o método é sempre o mesmo para identificação de cópia. “É só colocar algumas palavras-chave no Google que aparece de primeira”. Isso quando os alunos não esquecem alguma pista importante: “eu já peguei apresentação que os alunos copiaram integralmente e não tiraram nem o nome da empresa original”, conta o professor Godofredo.
O professor Ulisflávio Evangelista, de Rádio e TV, conta que consulta na internet os artigos feitos e há sempre um grande índice de plágio “chega a 90% em artigos, em monografia o número é menor”.
“O perigo maior reside nos trabalhos de monografia, isso sim é complicado, eu mesmo já reprovei três por conta de plágio, dois desconheciam o conceito de plágio e o terceiro foi mal intencionado mesmo”, conta o professor Jenner Ferreira, de Engenharia da Computação, que descobriu as cópias pesquisando no Google e “em uma delas o menino usou um capítulo inteiro de um livro e deu azar porque eu tinha recém comprado [o livro]”.
Super Nanny
Mas o que deve ser feito quando identificar um plágio? O professor Ricardo Leite recomenda: “tem que discutir com o aluno, explicar o problema ético, ele tem que entender os motivos, não só punir. Pode até levar o autor para conversar”.
Quando são pegos por plágio, os alunos costumam justificar da mesma forma. “Eles dizem que trabalham o dia todo e que não tiveram tempo para fazer. Mas quando eu peço um trabalho já aviso que não aceito cópia integral, para vários alunos eu devolvi e mandei fazer de novo, valendo menos”, diz o professor Paulo Godofredo.
Alguns ainda querem mérito pelo que fizeram. “Dizem que não tinha nada para consultar, que todo mundo faz e que falta tempo, é um problema crônico, eles acham que o professor tem que aceitar”, relata a professora Elaíne Brito Castro, de Fisioterapia.
Alunos strikes back
Do lado dos alunos, a falta de atenção dos professores pesa também na hora de dedicar mais ou menos tempo ao que é pesquisado e produzido. Roberto* conta que durante os anos que estudou Direito, em Campo Grande, ele e os colegas sabiam que alguns professores não corrigiam os trabalhos e por isso entregavam o que era pedido com algumas modificações.
“Em Direito há vários entendimentos sobre um tema e o professor pedia esses entendimentos, e a gente inventava autor e entendimento, eu era mais discreto, e citava nomes normais. Tinha colega que colocava coisas grotescas, como Ayrton Senna, Tim Maia, Edson Arantes do Nascimento e Maria das Graças Xuxa Meneghel. Nunca teve um professor que atentasse para isso. Sempre tivemos notas boas”, conta o ex-aluno.
Maria*, aluna de uma faculdade da Capital, não teve a mesma sorte que Roberto. Em sua monografia de conclusão de curso ela foi reprovada, os professores identificaram o plágio de uma outra monografia. "Eu estava grávida, sem tempo, sem cabeça para fazer a monografia, não queria deixar para depois do nascimento da minha filha, eu me arrependo, mas agora vou fazer tudo certinho", conta a acadêmica, que deve tentar novamente o diploma em 2009.
Fonte: Campo Grande News







